Antes que eles cresçam

Existem despedidas da infância que ninguém percebe quando acontecem.

A última vez que uma criança pede colo.

A última vez que pronuncia uma palavra daquele jeito engraçado.

A última vez que acredita em alguma coisa que, para ela, ainda era absolutamente possível.

A última vez que pede para você ficar até ela dormir.

Quase nunca sabemos que é a última.

Talvez seja melhor assim.

Se soubéssemos, provavelmente tentaríamos interromper o tempo.

Mas a infância não desaparece de uma vez.

Ela vai mudando silenciosamente.

Um dia, os sapatos ficam pequenos.

Depois, as histórias ficam curtas demais.

A prateleira muda.

O quarto muda.

As perguntas mudam.

A criança também.

E, enquanto isso, estamos vivendo.

Há louça na pia, horários para cumprir, mensagens chegando, noites em que estamos cansados demais e manhãs em que todo mundo precisa sair cinco minutos antes.

Por isso, falar sobre a brevidade da infância pode facilmente virar mais uma cobrança.

Este texto não é sobre isso.

Nenhum pai ou mãe consegue estar inteiramente presente o tempo todo.

Nenhuma família vive em câmera lenta.

Nenhuma infância precisa ser perfeita para ser bonita.

Talvez possamos abandonar essa ideia.

O que podemos fazer é perceber um pouco mais.

Porque existe uma diferença entre tentar aproveitar cada segundo e estar disponível para alguns deles.

Às vezes é fechar o computador quando uma história começa.

Às vezes é deixar a cozinha bagunçada por mais meia hora.

Às vezes é dizer sim para uma volta no quarteirão.

Às vezes é apenas olhar.

Olhar de verdade.

Guardar mentalmente o jeito como aquela criança corre agora.

A voz.

O cabelo depois do banho.

A mão pequena segurando alguma descoberta importantíssima encontrada no chão.

Não porque precisamos transformar tudo em memória.

Mas porque aquilo está acontecendo agora.

Talvez a urgência da infância não esteja em fazer mais coisas antes que ela termine.

Talvez esteja em não deixar que a pressa ocupe tudo enquanto ela acontece.

Crianças crescem.

É o curso natural das coisas.

E há beleza nisso também.

Elas aprendem a fazer sozinhas aquilo para o qual antes chamavam por nós.

Ganham um mundo que não conhecemos inteiro.

Criam opiniões, amigos, repertórios, segredos, caminhos.

A proximidade muda de forma.

E deveria mudar.

Criar uma criança nunca foi mantê-la pequena.

Talvez seja acompanhar alguém enquanto ela se torna cada vez mais ela mesma.

Por isso, não precisamos segurar a infância.

Precisamos vivê-la enquanto ela está aqui.

Com os dias bons e os difíceis.

Com as férias e as segundas-feiras.

Com aniversários inesquecíveis e jantares completamente comuns.

Com fotografias bonitas e momentos que ninguém lembrou de fotografar.

Porque haverá um tempo em que muitas das coisas que hoje interrompem nossos dias serão justamente aquilo de que sentiremos falta.

Um chamado vindo do outro cômodo.

Um desenho entregue como presente.

Um brinquedo no caminho.

Uma pergunta sem fim.

“Olha.”

“Vem.”

“Brinca comigo.”

Um dia, outras palavras ocuparão esse lugar.

E tudo bem.

Mas hoje elas ainda estão aqui.