“E o que a gente vai fazer hoje?”
Talvez uma das respostas mais generosas que uma criança possa ouvir de vez em quando seja:
não sei.
Sem aula marcada. Sem passeio programado. Sem uma atividade preparada por um adulto esperando para começar.
Só uma tarde.
Para nós, adultos, isso pode parecer um espaço vazio.
Para uma criança, pode ser exatamente o contrário.
Porque quando ninguém entrega a brincadeira pronta, alguma coisa precisa acontecer.
Uma almofada pode virar montanha.
Uma cadeira, esconderijo.
Um pedaço de papel pode começar como desenho e terminar como mapa de um lugar que não existe.
Uma caixa pode virar casa, ônibus, barco, loja — às vezes tudo isso antes do jantar.
É nesse espaço aparentemente desocupado que a imaginação precisa assumir o comando.
Só que existe algo cada vez mais raro nesse tipo de tarde: tempo disponível.
A infância de hoje também tem agenda.
Escola. Esporte. Inglês. Festa. Aula. Compromisso. Tela. Deslocamento. Atividade.
Muitas dessas coisas são boas. Algumas são maravilhosas.
O problema começa quando cada intervalo também precisa ser preenchido.
Quando o tédio parece um problema que um adulto deve resolver rapidamente.
“Estou entediado.”
Nossa primeira reação costuma ser oferecer alguma coisa.
Uma sugestão. Uma atividade. Um passeio. Um desenho. Uma tela.
Mas talvez nem todo tédio precise ser resgatado.
Existe um pequeno desconforto entre não ter o que fazer e descobrir o que fazer.
É justamente ali que algumas brincadeiras começam.
A criança olha ao redor.
Experimenta.
Abandona uma ideia.
Tenta outra.
Chama alguém.
Decide brincar sozinha.
Inventa uma regra.
Muda a regra.
Descobre alguma coisa que nenhum adulto havia planejado ensinar naquele dia.
Brincar livremente não é não fazer nada.
É ter espaço para decidir o que fazer.
E talvez isso explique por que algumas das nossas próprias lembranças de infância pareçam tão pouco extraordinárias quando contamos em voz alta.
Passamos uma tarde tentando construir alguma coisa.
Inventamos um jogo cuja regra ninguém mais entenderia.
Fizemos uma poção com folhas.
Desenhamos durante horas.
Brincamos na calçada até alguém chamar para entrar.
Nada disso precisava resultar em alguma coisa.
Talvez essa seja uma das diferenças mais bonitas entre brincar e produzir.
O adulto está acostumado a perguntar o que uma atividade desenvolve.
Coordenação? Raciocínio? Criatividade? Autonomia?
São perguntas legítimas.
Mas uma criança não precisa saber que está desenvolvendo alguma coisa.
Ela pode simplesmente estar vivendo.
Isso também muda a maneira como escolhemos aquilo que colocamos ao redor dela.
Nem todo objeto precisa explicar exatamente como deve ser usado.
Alguns dos melhores deixam espaço.
Espaço para inventar.
Combinar.
Construir.
Desmontar.
Começar de novo.
Transformar uma coisa em outra.
Talvez possamos fazer o mesmo com o tempo.
Não preencher tudo.
Não conduzir tudo.
Não transformar cada tarde em uma oportunidade que precisa ser aproveitada.
Algumas podem simplesmente permanecer abertas.
Porque uma tarde sem planos não é necessariamente uma tarde vazia.
Às vezes, é justamente onde cabe mais infância.

